quinta-feira, abril 29, 2010

A moustache by any other name would look as fluffy.

Corria o ano de 1996, ano mítico para a história do Sport Lisboa e Benfica em que após um início de época imparável, o "glorioso" descambou para um dos maiores cocós futebolísticos de que há memória.

Parte integrante de uma “equipa-maravilha”, como chegou a ser vaticinado no início, onde pontificavam, entre outros, craques como Hassan, Mauro Airez, Luiz Gustavo e Martin Pringle….o Matador - como era conhecido entre os colegas do chope, talvez por ser ele o fornecedor da carne para os churrascos - chega ao Benfica vindo do São Paulo do Brasil para fazer meia época… O suficiente para marcar o clube da luz e os nossos corações.

Dono de uma técnica invejável e de uma capacidade física notável, Valdir sobressaía fortemente devido à sua farfalhuda concentração capilar no lábio superior, facto que lhe granjeou o cognome de “Valdir Bigode”, que posteriormente lhe foi muito útil aquando da sua transferência para a Arábia Saudita, mas vamos por partes.

Poucos segundos depois de nascer, Valdir já granjeava o seguinte comentário da parteira: “Pô gente, essi minino vai ser jôgadô dji futchibou!, olha só pra essi bigodji!” (é preciso relembrar que estávamos no inicio dos anos 70, e nessa altura ter bigode era um dos requisitos para se ser o verdadeiro futeboleiro… mais ou menos o que se passa hoje em dia com o Cabelinho à Maniche). Aí ficou então traçado o destino de ‘Valdirzinho’ – como era conhecido pelos amigos da favela - iria ser jogador da bola!

Após a formação futebolística, onde pontificou nas equipas de futsal, futebol de praia, futvólei, futminton e futby da colectividade do seu bairro-natal, eis que chega a oportunidade de se estrear nas ‘grandes ligas’ ao serviço do Vasco em 1992, ganhando grande admiração da torcida e também por parte dos colegas, nomeadamente de Roberto Dinamite que disse: “…o Valdir além de ser um grande goleador, é também um excelente cortador de carnes.”

Ao fim de três épocas gloriosas, em que Valdir conquistou uma série de troféus (entre eles o de melhor picanha e o bife mais tenrinho do Rio de Janeiro), foi contratado por outro histórico, vulgo o São Paulo. Seria aqui que a sua performance no campo da charcutaria e abates de gado atravessaria o Atlântico onde os responsáveis benfiquistas, atentos como sempre e com necessidade de organizar uma tainada, e sabendo de antemão que as melhores carnes são as da América do Sul, decidiu adquirir os serviços de Valdir Bigode.

Em plena época de 96/97, numa fria manhã de Dezembro, aterrava o voo número 457 da Varig no aeroporto de Lisboa… Voo histórico nos anais benfiquistas, pois ao mesmo tempo chegava Valdir à Doca de Santo Amaro no interior de um contentor vindo de Terras de Vera Cruz que continha também, entre outros, Lúcio Wagner e Luiz Gustavo sendo os únicos que resistiram à fome e peste na extensa área de 6 m2 do contentor – o mesmo já não se pode dizer das grandes promessas que acompanhavam o craque, nomeadamente Doricleivison Jr. e o infeliz Marcelo Ramiro Camacho, vedeta do Bangu, que durante a viagem foi abusado sexualmente pelos colegas, que o apelidaram ‘carinhosamente’ de Ho.

Mas Valdir Bigode chegou enfim aos píncaros do afecto da massa associativa encarnada, não só pelo seu futebol estonteante mas também por patrocinar uma cadeia de roulottes de bifanas e couratos nos arredores do estádio da luz, razão pela qual o seu colega de equipa Martin Pringle apanhou várias diarreias fulminantes, resultando nas suas correrias desenfreadas no intervalo dos jogos em casa… Quem se queixava era Bermudez, que durante os estágios levava uma mala cheia de vaporizadores ambiente para disfarçar o cheiro, resultando na sua ida para a Argentina… O colombiano nunca mais foi o mesmo.

Mesmo demonstrando toda a sua qualidade (futebolística e de charcutaria), o Sr. Bigode transferiu-se no final da época de volta para o Brasil, nomeadamente para o Atlético Mineiro, dado terem surgido abaixo-assinados e várias manifestações para o regresso do jogador: aparentemente havia várias famílias ansiosas pelo regresso do matador e das suas carnes.

Futuramente, Valdir passou pelos Emirados Árabes Unidos onde representou o Al Nasr, acabando a sua frutuosa carreira no Al-Nassr da Arábia Saudita.

Bigode possui hoje uma cadeia de talhos e casas de abate, continuando a sua lenda de Matador, dando aulas de xadrez a deficientes mentais nas horas vagas, pois segundo ele: “Faz-me lembrar os tempos em que brilhei no Benfica”.

E sim, Valdir ainda hoje ostenta o seu bigode com orgulho!


Post Scriptum Cromatium: Este arroto com leve odor a bolo alimentar foi regurgitado pelo omnipotente SEPH, do blog "O Dia Seguinte". Para quaisquer reclamações, visitem o referido site e demonstrem toda a vossa indignação para com o escriba. Bem Hajam.

domingo, abril 18, 2010

A Bola - Será a pior capa de sempre?

A 25 de Março de 1996, o jornal "A Bola" tem esta capa, dividida em 4 assuntos:

- Gaston Taument a caminho do Sporting
- Beto a caminho do Ajax (houve anos em que era o Real Madrid!)
- Silvino operado
- Rui Costa (com a frase do costume enquanto esteve fora - "um dia regressarei ao Benfica"

Taument acabou por vir para o Benfica e foi o flop já conhecido.
Beto foi só no final da carreira para o estrangeiro, tendo ido para um clube de 3ª plano de Espanha
Rui Costa regressou sim, quando já não aguentava com as pernas !

Que grande capa, obrigado ao jornal A Bola

segunda-feira, abril 12, 2010

Conversa Moderna

- Então, Pedro, gostas desta ideia que eu tive?
- Isto é para o Carnaval, certo?
- Qual Carnaval, qual quê! Isto é verdadeiro espírito dos anos 80! Está de volta e em força, nos salões de beleza e spa’s não se fala de outra coisa! Prepara-te que a laca e os chumaços vão voltar a estar na berra!
- Ó… ó Miguel… não sei, pá…
- O que é que foi?
- Achas que este sapatinho me fica bem?
- Ouve, man, é do melhor! Nunca estiveste tão bem, pá! ‘Tás lindo, pá!
- E esta meiinha branca… pá, não sei… eu tenho um estilo mais sóbrio, percebes?
- Man, queres dar o salto para um clube inglês ou não?
- Ó Miguel, eu já vim de lá…
- Mesmo assim! Tens que dar nas vistas! Dentro do campo, na passerelle com a Fátima Lopes, na capa da Nova Gente, na fila para o concerto dos Tokio Hotel… tens é que ser falado, pá! O teu empresário nunca te disse isso?
- Pois… mas eu não gosto muito deste aparato… se o Costinha me vê assim, acho que desmaia… sabes como ele gosta de roupa cara… e isto parecem uns trapos que os ciganos usavam como cama para os cães deles lá nas feiras. Até deve haver pulgas dentro dos bolsos e tudo… Não sei, não sei…
- Fica à vontade, man, fica à vontade.
- Tu gostas desse fato de treino cor-de-rosa, Miguel?
- É o meu fato de gala. E é Adidas, não brinques.
- Livra!...
- Isto é estilo. Isto é de jogador de elite. Podes falhar poucos passes e teres aquele jogo geométrico e mais não sei o quê, mas tens muito para aprender comigo em termos de moda.
- Isso é mais para a malta nova… os Andrés Villas-Boas desse mundo e coisa e tal...
- Actualiza-te, pá. Hoje em dia, não há nenhuma grande estrela que não seja extravagante. Mete gel, muda de brincos, fala na terceira pessoa, falta ao treino por razões psicológicas, arranja namoradas que sejam modelos.
- Bom… Eu não tenho lábios.
- Sim, és um bocado vampiresco… Mas não chega.
- Olha, eu gosto é de treinar e de fazer girar o carrossel a meio-campo… ser o pensador do jogo… jogar como pivot… quero apenas ser competente… um profissional abnegado.
- Man, ‘tás out. ‘Tás mem’ bué da out. Tipo… fora dela, ‘tás a ver? O pessoal ‘tá todo aqui e tu ‘tás ali. Se fores à África do Sul é apenas por sorte.
- Eu não percebo o que estás a dizer…
- Pois… o que eu digo é muito à frente. É o que os ingleses chamam de “modern talking”.

sábado, abril 10, 2010

Uma Lembraança

Saavedra. Aavançaado. A maarcar golos era aassim-aassim. Já quanto ao estilo... ora bem, Saavedra era um maatador nesse caapítulo, o Oates que fugiu ao Hall para (en)cantaar, de forma fugaz como um bom one hit wonder dos anos 80, os rectângulos de jogo da bola lusa.
Saiu de Aangola. Passou por Belém. Andou por Chaaves. E foi aí, esmagaado pela titâânica concorrência de Karoglan, Omer, o pai do novo Eusébio Makukula e o finlandês-que-por-acaso-pensava-que-futebol-se-jogava-com-um-volante-de-ralis Tarkkio, que se fartou do baanco de suplentes. Voltou para Aangola. Disse adeus à bola sem que ninguém lhe tivesse ouvido dizer oláá.
A sua grande marca nos aanais da bola lusa: um bigode de inspiração caantinflica, um bigode anti-Hitler, frondoso nas extremidades mas inexistente no centro. Para além, claro, da sua grafia muito particular. E, assim de repente, já não resta muito mais a dizer sobre Saavedra. A não ser que Saavedra possuía este dom de nos deixar mudos de espanto, estupefaactos com a nossa impossibilidade dissertiva, embasbacaados com a grandiosidade aalfabética de seu nome.
Os seus treinadores apenas reparavam nele quaando olhavam para o lado e viam todo um deserto de baancos por preencher e o Saavedra lá ao fundo, com o resultado em 0-3. Geralmente, lembramo-nos dele como nos lembramos de Saanta Báárbara: apenas em ocasiões especiais. Ou quaando queremos surpreender alguém com aalgo que não Mon Cheri. Ou quando ficamos sem bateria no telemóvel e não temos carregador e dizemos para nós mesmos “devia ter dado mais minutos ao Saavedra, ele pelo menos tinha um Nokia”. Ou quaando pensamos em fenómenos de contornos sobrenaturaais que não conseguimos transmitir por palaavras e tudo o que nos surge é uma imagem de Saavedra a deambular lá diaante, perdido na espessa brumaa da defensiva contrária: perdido no caampo como um Saavedra.
Podíamos dizer que Saavedra era uma pedra? Podíamos. É a rima fácil que todos queremos fazer uma vez na vida.
Saavedra. Talvez tenha mais vogais no nome do que golos na carreira. Fantáástico.

Inspirado na rubrica “O que é feito de…” da Best Rock FM (sim, recordávamo-nos dele, até já estava aqui).

quarta-feira, abril 07, 2010

Bully Machado


"I'm standing here; you make the move. You make the move. It's your move... " (Travis Bickle)


Falam muito de bullying hoje em dia. Como se o bullying tivesse nascido ontem. Nada mais falso. O bullying já vem de longe. E o futebol português é disso testemunha. Gajos duros, inflexíveis, nascidos e criados à chapada e pontapé, não conhecendo outra lei que não o kick-and-kick-and-then-maybe-rush. Bigodes rebeldes e cabeleiras indomáveis em equipamentos rasgados e sem marca, manchados com suor e sangue. Crianças desdentadas que foram futebolisticamente educadas em baldios com dois bidões a arder a servir de baliza e que faziam uso e abuso de uma fisga entalada nos calções. Jogadores ríspidos com um férreo código deontológico de porrada. A beleza de uma cabeçada falhada na bola e acertada no cocoruto do oponente. A fluidez de palavrões a sair por entre o cuspo a toda a hora. O prazer de partir caneleiras só com o hálito. O fascínio pelo carrinho destemperado feito de olhos fechados. Coisas bonitas que raramente vêm nos jornais.


Temos apresentado ao longo dos tempos múltiplos exemplos destes jogadores box-to-hospital. Ainda faltava homenagear essa formiguinha batalhadora dos relvados, esse animal de campo cuja energia, por vezes demasiado faiscante, jamais parecia findar. Quim Machado era o seu nome. Haverá bullies de igual ou superior reputação, é discutível - Binya, por exemplo, jogava num campeonato à parte neste capítulo e Paulinho Santos atingiu um patamar lendário, construindo uma reputação mais resistente ao tempo que a biodegradação do plástico. Mas Quim Machado, o generoso Quim Machado, ainda não tinha merecido as nossas honras. Talvez por medo de retaliação. Mas hoje enchemos o peito e denunciamo-lo sem receio de represálias.


Quim era um Machado em forma de jogador da bola. Cortava tudo a eito. Era um híbrido: 50% lenhador, 50% futebolista e 10% mau aluno a matemática. Curiosamente, homónimo de outro Quim, o Berto, que não teve alternativa senão ficar com o Berto, após uma discussão acesa com este Quim, o Machado – mentira, levou logo um sopapo mal se pôs em bicos de pé e nem sequer chegou a haver discussão. Quim Berto referiu-nos em off “Eu sentia medo quando ia para os treinos… (pausa) Tremia quando chegava a casa, o estômago andava às voltas, tinha suores frios só de pensar em encontrar o Quim Machado à minha espera no balneário (bebe água)… Ele, uma vez, entalou-me a cabeça numa janela da Torre de Belém durante uma viagem, supostamente de descompressão, ao Portugal dos Pequeninos e fui gozado por uma turma da 4ª classe uma tarde inteira… Um pesadelo…Bater livres era o único escape para mim… Foram tempos difíceis… Não quero mais falar, ele pode estar a ouvir. Especialmente se estivermos em off. Estamos em off? Oh, c’um caraças!, estou f…(desligou)”


Com as melenas ao vento e de dentes cerrados, Quim Machado estava longe de ser um quequinho esquisito com manias de “não-me-toques”. Em praticamente qualquer posição do campo era capaz de intimidar. Os seus treinadores apreciavam-no. Os seus adversários ora zombavam, ora tremiam. Mas Quim Machado deixou uma escola, qual Sócrates (que não José), na qual qualquer rude Flávio Meireles aprendeu a cabular. Luís Freitas Lobo, o special-one da poesia futebolística, caracterizou Quim Machado como “um jogador mais preocupado nas transições defensivas, com um forte pendor físico, inicialmente um nº6 à moda antiga, um polivalente com espírito de sacrifício, que também podia jogar a nº8 e que desenvolveu uma carreira profícua como lateral-direito. Voluntarioso mas de reduzida capacidade técnica, era pouco propenso ao desequilíbrio. Extremamente útil em equipas medianas, era forte a cortar linhas de passe e não só. Não enchia o olho, não era jogador que deslumbrasse, não sabia improvisar com a bola nos pés”. E, dito isto, levou com uma bolada nos dentes do próprio Quim Machado, que poucos consideraram involuntária.


Nascido na terra dos jesuítas, cedo se percebeu que Quim Machado estaria destinado para pregar a sua palavra por muitas paragens e em muitos adversários. Normalmente, ficava só duas temporadas no mesmo sítio – a primeira para apalpar terreno e a segunda para vandalizar de tal forma que o seu adeus se tornava inevitável. Começou em casa, em Santo Tirso, que se tornou rapidamente golpeada pela sua lâmina afiada. E então deu início ao périplo, saltando para o Sp. Braga. Na terra dos arcebispos cometeu heresias da pior espécie. Fez uma curta viagem até Guimarães. Escandalizou mentes sensíveis e deixou o pouco impressionável Dane danado da vida. O Minho era pequeno demais para as suas diatribes e, volvidos dois anos, arribou à Amadora. Sentiu-se peixe na água nos subúrbios, fez miséria nos comboios e nos caixotes a que chamam “prédios de habitação”, aterrorizou uma cidade já de si pouco pacata. Birame ficou boquiaberto, Mazo fez das tripas coração para sobreviver e Chainho ganhou um amigo. Bateu com o que restava da porta e rumou até Chaves, espalhando a sua religião a indivíduos do calibre de Parfait N’Dong, Toninho Cruz e, por que não dizê-lo?, todo o resto deste galáctico plantel. Em notória curva descendente, fez ainda breves incursões por Varzim, Campomaiorense, Maia e Desp. Aves e chegou mesmo a internacionalizar o seu jeito pelo grandíssimo Dudelange, onde ficou conhecido pelo “terrible portugais”, e não apenas pela sua forma arcaica de ir à linha de fundo cruzar bolas, ou lá o que era aquilo. Hoje treina, com relativo sucesso, o “seu” Tirsense.
No currículo de Machado apenas uma grande mancha: não, não era a internacionalização que não fugiu a Vado, que isso era pedir demais; foi a falta de um bigode viril, condizente com o seu carisma, e, porque não dizê-lo, com o próprio nome Quim. Mas agora cá está ele, Quim: cá está um excelso bigode só para ti. Já não tens motivos para nos fazeres mal.

domingo, abril 04, 2010

FC Porto 8 - Valonguense 0

1997-1998.
Estádio das Antas
Valonguense...
acho que vão perceber porque razão figuram neste blog os jogadores do Valonguense. Chamo a especial atenção para o GR suplente, ERNESTO. ERNESTO.
A voz inconfundível de Costa Monteiro é também uma relíquia assinalável.

quarta-feira, março 31, 2010

Os Tanques também Amam

O que têm em comum Fernando Aguiar e um aleatório jogador de futebol, para além de ambos respirarem e serem seres orgânicos?

Provavelmente nada, tendo em conta que o jogador de futebol joga de facto à bola.

Fernando, por outro lado, foi meramente um profissional da área. Existem longínquos relatos de indivíduos que juram tê-lo visto em contacto com a redondinha, mas em todas as situações rumoradas, esse mesmo contacto terá acabado em tragédia:

Foi horrível. Instalou-se o pânico na bancada, as pessoas começaram a correr em direcções opostas, cobrindo os olhos com camisolas e os ouvidos com as mãos. E as crianças, meu Deus! Alguém PENSOU nas crianças?!?”

Jorge “Gazua da Póvoa” Gamboa, companheiro de Aguiar no Beira-Mar de 2000-01, ainda não superou os traumas enfrentados no dealbar de século:

“Nunca mais fui o mesmo. Vi um rapaz dos seus 17 anos a arrancar ambos os olhos com um saca-rolhas. Eu próprio perdi o amor pelo futebol, depois de vislumbrar o Fernando a tentar um passe atrasado sobre a meia-lua, num Beira-Mar – Chaves de 2001. Foi hediondo. Ainda hoje tenho dificuldades em ver trincos com a bola nos pés.”

Fernando, por outro lado, mantém-se à ilharga da polémica. Impõe o físico no duelo 1x1 e sorri perante médios criativos que sejam estúpidos o suficiente para acariciar a redondinha nas suas redondezas. Ser agressivo é crime? Será que o Pensador de Rodin foi criticado por ser demasiado granítico? Fernando é só mais um caso da arte imitando a vida, uma estátua intransponível com responsabilidades de tampão ofensivo. “Estanca a sangria, Nando!”, gritavam-lhe do banco. Ele nunca quis ser odiado. Fernando procurava amor, aceitação. Ele só queria ser amado – e dar porrada.

Serão duas coisas assim tão incompatíveis? O canadiano queixa-se entredentes da incompreensão e ignorância que grassam no futebol luso – a crítica chamusca-lhe o ego, os maliciosos piropos da bancada causam-lhe psoríase, mas o tanque esmaga tudo pelo caminho. Impiedoso, omnipotente, ciclópico.

O colosso da queixada rectangular arrepiou caminho no hercúleo Toronto Blizzard, atravessou o Atlântico a nado (e só com um braço – estava a ler os Lusíadas com o outro) até chegar à Madeira, nadou mais um bocado até à Maia, e foi aniquilando o desporto-rei, relvados vários e canelas aleatórias até atingir o objectivo principal da carreira: destruir um prédio de cinco andares à cabeçada.

E depois, pronto, lá chegou ao Benfica.

A sua contratação causou alguma surpresa, dado que o clube da Luz – apesar de tudo – estava mais habituado a adquirir jogadores de futebol.

Aliás, especula-se que a sua aventura no ex-clube de Alejandro Escalona poderá ter tido a ver com a presença do iraniano Samir Shaker na equipa técnica do mesmo. Os ventos do futebol luso sussurram ainda hoje que o soturno Shaker seria um agente enviado pelo governo de Teerão para aquilatar a disponibilidade de Fernando Aguiar se deslocar ao Médio Oriente para abraçar as funções de arma de destruição maciça na Guerra Santa contra os Infiéis. Samir supostamente já teria levado uma nega de Musa Shannon e Jokanovic no CS Marítimo do ano transacto. Com o cepticismo de Fernando e na sequência de mais uma recusa semi-lusitana à Jihad, Samir Shaker deixaria mesmo o futebol português no final da época, desaparecendo como o vento (ou como Victor Quintana) para parte incerta.

Na sequência da recusa à Jihad - e consequente permanência em Lisboa, Fernando sentia-se lisonjeado por poder partilhar a meia-lua com Andrade:

“Tenho muito a aprender com o Andy. A forma como ele despedaça ossos é lendária. E admiro a subtileza com que ele rasga tendões. Tudo o que envolve o seu jogo é tão etereamente belo, que me apetece dedicar uma Ode às suas proezas.”

Esta épica publicação pela pena de Fernando Aguiar acabou por nunca chegar às livrarias, mas corre a lenda no balneário do Benfica que vários jogadores derramaram comovidas lágrimas ao ler as delicadas estrofes do trinco.

Emanuele Pesaresi compara mesmo Aguiar a um Homem do Renascimento Italiano: “Ele é brilhantti. Suas parolas são tão comoventes e toccantis, que me fizzeram querer abrazzar homens.” Porém, o italiano afiança que as lágrimas foram resultado de outras situações: “Não, não…não houve lágrimas. Quer dizzere, houve, peró foi perché ele nos batia muitas vezes. E doía, doía molto. Porca miseria."

A História de Fernando no Benfica foi bonita. Efémera, como o grosso dos mais tocantes contos de amor, mas sedosa e envolvente como um fio de cabelo de Miguel Veloso. Entre 2002 e 2004, o Estádio da Luz viveu uma frutuosa relação com o trinco, pois não só usufruiu dos inúmeros talentos do jogador mais virtuoso de sempre a sair do Canadá (após Alex Bunbury, obviamente), como também poupou uns cobres no que respeita à demolição do antigo Estádio – conseguindo adquirir as percentagens dos passes da orelha esquerda de Azar Karadas, da coxa direita de Éverson e de um molar de Manuel dos Santos com o dinheiro que entretanto pouparam.

Porém, o grandiloquente canadiano tinha um sonho. Como todo o filho da terra, o Curling era a sua paixão, e por muito ecléctica que a agremiação lisboeta fosse, o desporto das vassourinhas não fazia parte do seu portfólio. Assim, Fernando fez a trouxa, e qual Lucky Luke cavalgando em direcção ao horizonte pintado a tons de pôr-do-sol, deixou a solarenga capital lusa em descoberta do gélido paraíso, de seu nome Landskrona, burgo sueco de fria reputação.

Como bastião maior do Landskrona Boll Och Idrottsällskap, Aguiar conseguiu finalmente preencher mais um vazio da sua gigante alma – manejar uma vassourinha em cima de um parquet de gelo (e destruir um glaciar à cabeçada, mas isso fica para outras núpcias).

Finalmente realizado, Aguiar perdera a raiva, combustível futebolístico de outrora, e era agora um casulo de Paz, um ursinho de pelúcia com fresco odor a lavanda. E a sua performance ressentia-se. No duro campeonato sueco, palco das estrelas e Céu das mais brilhantes constelações da redondinha, Fernando era apenas mais um. A bola atrapalhava, o gelo não ajudava e pela primeira vez na sua vida, o tanque canadiano não ripostava ceifando, arrastando, puxando e maltratando os oponentes. Não. O veterano de tantas batalhas perdera aquilo que o tornara especial.

Assim, só havia uma solução possível - voltar ao local onde fora feliz: onde Fernando Aguiar aprendera a ser Fernando Aguiar. Portu fuckin' gal.

Deixando a meio a tela do sonho pintalgada a Curling, o nosso amigo abandona os barbáricos túneis do Landskrona Boll Och Idrottsällskap para ingressar num clube português cuja sigla é F.C.P. e que conta com Clayton, Folha e Ljubimko Drulovic no ataque. Infelizmente, o calendário segredava o Ano da Graça de 2004 – e o tal F.C.P. era o Futebol Clube de Penafiel, cujo decrépito trio ofensivo cruzava o cautchú em decomposição para a cabeça de Rolf Landerlhardly a Mário Jardel, i say.

Enfim. É o que se arranja. De qualquer forma, não é qualquer um que tem a Honra de poder contar aos netos que formou barreira ao som dos autoritários grunhidos do lendário keeper João Viva, uma espécie de Pedro Roma das divisões secundárias.

Seduzido pela alva barba do Major Valentim, Fernando ainda deu uma perninha tetra-anual no principal grémio da cidade de Gondomar, onde pôde partilhar balneário com o Fumo, coisa que certamente não lhe terá feito bem aos quatro pulmões. Terminou a carreira flirtando com os quarenta, a distribuir fruta ao lado de ícones como Fabeta e Idalécio.

Decididamente, a coisa poderia ter corrido bem pior para a primeira arma de destruição maciça a sair do Canadá – mesmo que a carreira no Curling não tenha sido inteiramente frutífera.


Post Scriptum Cromatium: algumas destas imagens foram desenvergonhadamente surripiadas do bossiânico blog Vedeta ou Marreta.

sábado, março 20, 2010

Beira Mar vs Viseu há 13 anos - 97-98

Este video vale a pena.
Gilberto Madaíl e Dias Ferreira há 14 anos atrás. que novinhos e amigos que eles eram..
Jogadores de cuecas a correr à volta do campo... onde é que hoje se ve isto?
Lobão e a sua imponente compleição física...Eusébio, Jorge Neves, Welder, que equipa!!!



Uma bela recordação do nosso baú!

domingo, março 14, 2010

A Nossa Selecção

A Cromos da Bola, SAD associa-se mais uma vez a uma nobre iniciativa. Eis a nossa modesta contribuição: um exemplar fotográfico representando a nossa Selecção de sonho - sim, uma Selecção alicerçada no robusto e genuíno bigode lusitano.
Foi difícil encontrar géneros bigodescos do meio-campo em diante. O bigodis lusitanensis, espécie hoje mais rara que um lince na Malcata, tinha o seu habitat natural nas selváticas defesas. Gostava de povoar a meia-lua em manadas gregárias, onde, entre a lama e bombos de claques femininas provenientes do peão, soltava os seus cotovelos e distribuía entradas em riste na sua luta pela sobrevivência. Aquilo para lá do grande círculo era geralmente um território inóspito e para tipos de fartas mullets aos caracóis com menos de 1,60m. À falta de registas bigodudos e de homens de área com a codícia em forma de pêlo facial, optámos por aquilo que as grandes selecções mundiais têm optado: as naturalizações.
Um grande bigode a todos que descobrirem os nomes deste onze que, não sendo de luxo, é pelo menos galhardo e honesto. Eles sabiam lá o que era o luxo, pá.

segunda-feira, março 08, 2010

O Pequeno Quim

A rede balançava, ele dançava, o público jubilava, e Deus – algures – exultava.

Vivaça era a vida do Pequeno Quim, grande no porte, insurrecto petiz de alma, sangue ardente no esculpido corpo, seu instrumento de trabalho. O Pequeno Quim era assim: exuberante como uma multicolorida borboleta, crisálida de eleição, e potente como um furioso touro, acicatado pelo vermelho-chama do fogo que lhe alimentava o Ser: o golo.

Incompreendido pelo estimado mentor (“one touch, two touch, quimmzin-ho goal”), o flamejante aríete do continente negro procurava refúgio nas bancadas, onde era amado como nenhum outro, em pleno auge feudal de D.Mário Jardel, o Primeiro. O Mantorras antes do Mantorras, este sim, a alegria do Povo, com dois joelhos e tudo – pois sem eles não conseguiria bailar Kuduro. Endiabrado, o Pequeno Quim.

Futebol-esquadro? Coisa para operários com bota quadrada, mais Alfaias que Nandos, menos Constantinos que Caos. Geometria sempre foi coisa para maricas. Futebol é Paixão, Calcio não é Catenaccio e Prof. Neca não é senão um calvo Darth Vader, enviado da Estrela da Morte para nos sugar o prazer da sumarenta clementina do beautiful game. O Pequeno Quim não nascera para traçar rectas a esquadro – o Pequeno Quim era o anti-Custódio, antes gingar que quebrar, nascera para emocionar, negra pantera de tardes gloriosas com o azul Dragão ao peito.

Porém, sempre apaixonado pela polémica, o Bigode de António Oliveira decidiu não ouvir os apelos da bancada. A central pedia Quim, a superior pedia Quim, até o tribunal por Quim clamava. Mas a única emoção a Quim ofertada, foi a da despedida. Uma dura, amarga despedida.

Já que o Pequeno Quim se assemelhava a uma locomotiva desgovernada nos trilhos do tapete verde, lá decidiu fazer da fama proveito e transformar a sua carreira numa espécie de percurso de Intercidades que pára em tudo o que é apeadeiro sem pedir licença.

Assim, fica a recordação da trajectória CP-style, com atrasos, croquetes a bordo, crianças a chorar, e claro – golos a brotar do ar condicionado desta carruagem em alta rotação: Leiria, Vila do Conde, Faro, Vila das Aves, Alverca e Estoril. All aboard, the Quim Train.

Sob a asa de um génio indomável, a locomotiva atravessou Oceanos, atropelando Peixes e engolindo Figos, chegando assim à China, continente sem Brunos ou Coentrões de cabelo pejado de parafina.

Qiao Ji Ma, nova identidade do petiz vagão ferroviário, corcel indomável no continente amarelo de carroça puxada a arroz. “What’s in a name? A rose by any other name would smell as sweet”, já dizia Mark Pembridge. Qiao Ji Ma concordava, acenando afirmativamente com o seu potente crânio. O título pode ser outro, mas o texto conhecia semelhante epílogo: golo, golo e mais golo. Ou Kwame Ayew – é assim que se diz golo em chinês…ou pelo menos foi o que o Duah nos contou.

De qualquer forma, após menear as ancas pelas bandeirolas de canto um pouco por toda a Ásia, Qiao Ji Mu decidiu regressar ao País que o viu nascer – o País que deu nome a Zé D’Angola, curiosamente um orgulhoso cabo-verdiano. Ou se calhar não será assim tão orgulhoso, mas cabo-verdiano é de certeza. E o Pequeno Quim - esse - é de novo Pequeno Quim: irreverente, poderoso, calvo, e apostado em tratar a bandeirola de canto como Axl Rose tratava um microfone, pois com Pequeno Quim, o rock n roll nunca morrerá.

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